domingo, 1 de abril de 2018

A grande bola prata

Sempre que me sento sob o céu, atolada em meus problemas comuns e confrontos cotidianos, me sinto o serzinho mais mínimo e rebaixado. A bel prazer entregue, presa no vazio da rotina. Faz tempo que perdi minha capacidade de fazer algo bonito, faz tempo que a projeção do meu eu me assombra, das expectativas aterrorizantes de quem eu poderia ter sido. Pensar sobre a morte é recorrente, agora sem o tom fúnebre e o desejo que antes estavam envolvidos. A morte é o fim e pronto acabou. O fim de toda a experiência.

O dia que eu não vou mais poder tocar na parte macia das suas maças do rosto. O dia que todas essas marcas desaparecerão. O dia que cai ser impossível escutar a voz de Elis por mais uma única vez. O dia que eu não vou ter lido aquele livro que você me deu no natal retrasado e ai será tarde demais. De todas as bebidas que não virei, de todas as vezes que deixei de repetir o prato favorito que minha mãe fez com medo de engordar. O dia do fim da minha existência, o fim de tudo de lindo que eu já pensei e não escrevi. De todos os riscos que poderia ter corrido e preferi a segurança. Que diabos de segurança, se vou ao pó, me importa?

A noite fria. A bola prata e uns potinhos na imensidão negra acima da minha cabeça. Está tudo silencioso. Irritantemente quieto. Tudo me apavora exceto o fim da distância. Eu verei você de novo? Eu jurava por Deus me comportar se pudesse ver você de novo. As cantigas que me cantava para dormir ainda sopram aos meus ouvidos.Nas cálidas manhãs chuvosas de domingo, o vazio que eu sinto tem o tamanho daquele prato de farofa com macarrão que era nossa tradição particular.

Você percebe como me afeta o Universo? Eu estou sempre esperando algo dele. Algum sinal do tempo. Se, de fato, existe razão, sentido ou motivo para estarmos aqui; Qual o sentido de tanta dor? Qual o sentido de ser destroçado diariamente e perder uma parte de si a cada novo amanhecer? Todos os dias eu me sinto como uma criança de 10 anos que conheceu a pior dor da vida. Criança sempre tão protegida. Quisera eu que aquela fosse a pior dor do mundo, a verdade é que é melhor aprender cedo que a morte não é a pior coisa que se pode acontecer..

O tempo passa vertiginosamente rápido. Uma década e contando. Eu me alimento de estrelas e me embriago com a neblina, buscando arduamente te esquecer.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Metas para 2018

Depois de uns 6 meses sem escrever nenhuma linha, cansei de balbuciar as palavras apenas na minha mente e voltei aqui para dividir algumas frases. 2017 foi um ano difícil. Ano de apanhar, de sofrer, de tomar decisões que vão influenciar o rumo da minha vida e de me abrir verdadeiramente para outro ser humano em forma de um relacionamento amoroso. Com certeza, nada fácil.

A escassez poética me acertou em cheio, assim como o ócio improdutivo e um sentimento desgraçador de ver a vida passar enquanto anseio por algo. Mas já desisti de buscar um sentido. E declaro que o Réveillon é minha data mais odiada. Como seres humanos projetamos no eu do futuro uma força que não tivemos no presente tampouco no passado. É uma tentativa de fugir do que realmente somos. Seres completamente vazios.

Vazios e burros. Por isso, eis minha lista de metas para esse novo ano, mais do mesmo, mas que com a fé que não habita em mim, vai ser mais feliz que o que passou.

1- Conhecer Macchu Picchu

Meu plano é conhecer ao menos um novo país por ano. Em 2017, conheci quatro (Inglaterra, França, Bolívia e Espanha).

2-Produzir conteúdo para internet

Faz tempo que passou o tempo dos blogs, mas quero me propor a escrever ao menos um post por semana pra cá. Quem sabe começar um canal no youtube, que é uma vontade antiga porém meio distante de ser posta em prática.

3- Parar de beber refrigerante

Independente de saber que essa merda é um veneno, as vezes sou vencida pelo hábito infernal. Meu objetivo para 2018, além de ter uma vida e uma alimentação saudável, é liquidar de vez a ingestão dessa bomba de corante e açucar.

4- Poupar dinheiro

A meta inicial é 3 mil reais. Como vou morar sozinha, receber dinheiro dos meus pais enquanto estou na faculdade, pretendo não gastar nadinha além das contas e de uma eventual saída de final de semana. Talvez até arrume um emprego.

5- Fazer natação (e não desistir no meio do caminho)


domingo, 20 de agosto de 2017

Party's over

A vida não é mais uma grande festa, recheada de oportunidades pulando da tela do computador e de convites para lugares cheios de bebidas e música. A vida não é mais um filme, onde todos os problemas desaparecem só de cortar ou pintar o cabelo. A vida não é mais uma idealização, o amor é real e, como tudo que existe, tem dois lados.



A vida adulta está na porta. A pressão para definir a profissão passou e eu fui atropelada por escolhas que talvez não sejam completamente de minha vontade agora. Seria mais fácil se eu realente soubesse. Mas sigo suspeitando que nesse mundo não existem grandes certezas e que todos esses adultos mais experientes que eu também atiram no escuro.

Eu vou embora. Dessa vez, não de mim. Vou embora da cidade que nasci e que tanto odeio e amo (às vezes). Ficarei 6 anos fora e sei que muita coisa vai mudar. E eu vou mudar também. Embora eu esteja morrendo de medo de mudanças terrivelmente irreversíveis, me preparo para esse momento há mais de 10 anos.

Mesmo que não fosse agora, eu iria embora. Pois não sou do tipo de mulher que nasce, vive e morre no mesmo lugar. Eu quero muito mais. O impulso místico de conhecer, arriscar e explorar são a unica coisa que escuto agora. Existem muitas outras energias por perto, aquelas que tentam minar a coragem. Outra coisa que me motiva é a vida do meu pai, tão dedicado em construir pontes para o meu sucesso, que não para mesmo as vésperas de completar 69 anos.

Eu vou, mas volto. Agora que tudo mudou e que eu tenho que tomar conta de mim e trilhar meu caminho. Sérias decisões. Deus queira que estas sejam as mais sábias. E se der errado, sempre há uma segunda chance para quem sonha.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Quebrando o tabu

Quinta feira (22/06), mais de 20 pessoas morreram em uma batida envolvendo um carreta, um ônibus, uma minivan e uma ambulância. O acidente ocorreu na BR-101 em Guarapari - ES. Uma sobrevivente do acidente, disse que enquanto pedia ajuda, as pessoas só filmavam ou tiravam fotos. Seu marido faleceu implorando por criar os filhos naquele dia.


 (Foto: acervo pessoal. Ouro Preto - MG. 2014)

Enquanto pessoas morrem e suas carnes são expostas por likes,  poesia é produzida artificialmente nas imagens centenas de vezes compartilhadas no Facebook. Retweets com frases frívolas de efeito viralizam. Vidas comerciais construídas por agências de publicidade são colocadas na vitrine impecável do Instagram. Vociferam-se opiniões de ódio e esvaziadas de significação e ganho real para o debate, sob pretexto de "somos injustiçados socialmente". Ignora-se que a vida toda é uma luta. Pessoas fracas. Temem falar de temas tão inevitáveis como a morte mas depressão e suicídio se tornaram hype. Falta uma boa dose de realidade nessa gritaria. Menos desferir socos contra qualquer pessoa diferente, menos autodefesa quando não há agressão.

 Se não gostou, muda! Você não precisa lidar com os problemas, as dificuldades, os erros, os medos, os pecados e aqueles instantes de desespero e lágrimas que caracterizam a grandeza do espírito humano porque a grandeza não é confortável. Não é comercial. Não é lucrativa nem positiva good vibes. Crescer dói. Encarar-se sem corretivo e base no espelho dói. Cuidar da própria carapuça e lixar as pontas ásperas do nosso caráter machuca. O alastrar de "você não precisa encarar isso se não quiser" transformou toda uma geração em gente mimada. Ironicamente, quem é mais "desconstruído" é mais pascácio. A doutrina da facilidade e dos direitos ao invés da dedicação, do foco e do esforço pessoal vão nos destruir. Desconstruir. A pequenez é louvada.

A liberdade falsa, floreando podridão e mentiras, nos aprisiona muito mais que a obediência. Quebramos tabus? Eu acho que não. Criamos vários novos enquanto se cacareja por ai que as opressões estão sendo esmagadas. Cadeias imobilizantes surgem para avoidar a expressão da opinião de forma destemida e irreverente, criminalizando a individualidade. Maldito seja todo que queira regular minha palavra. Se livros mudam pessoas, que as pessoas não mudem ao lerem livros que tranquem em si toda autenticidade. Que os livros não tornem mulheres e homens em grandes covardes. Que a paz não seja uma desculpa para o não confrotamento de ideias tortas e tiranas para tudo que há de aproveitável em nós.

William Faulkner em letras garrafais. EU ME NEGO A ADMITIR O FIM DO HOMEM.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Penny Dreadful


Escrito em 09/04/17


Eu sou uma criança da noite apaixonada pelos primeiros raios do sol da manhã. Estou tentando começar algo novo. Como poderia tamanha escuridão se encantar pelo brilho dos seus olhos? Eu não sou eu mesma. Não mais. Desde coisas banais, como gostar da cor rosa e ouvir músicas ruins para castigar meu paladar musical apenas por diversão.
Decidi parar de fumar e escolhi um emprego que me deixe feliz (e não com vontade de cometer suicídio aos 25). Sabe, suicídio era uma possibilidade até conhecer você. E eu era tão aplicada em adoecer e me matar que até tentei te mandar embora. Você foi e todos os meus abismos chamaram outros abismos e meu mundo nunca foi tão infeliz e olha que eu já passei por diversos níveis profundos de descontentamento e tristeza. Há pouco, eu observava St. Paul’s Cathedral, em pé na chuva, desejando pegar um resfriado tão forte que me levasse.
Little Scorpion conheceu o amor e isso rompeu com todas as concepções e impressões que tinha. Não é como nas expressões artísticas. É se perder para se achar, é ceder para ganhar. Um paradoxo e um misto de ternura e raiva profundas. É latente mas é estável e quando você entrelaça seus dedos nos meus eu sei que vai durar pra sempre. Mesmo que eu já te odeie no minuto seguinte.

domingo, 3 de julho de 2016

Ana

Ela tem 17 anos e se chama Ana Maria. Ana Maria gosta de cinema, de música e de literatura. Guarda em si a vaidade de parecer diferente de todas mas todas as outras garotas de 17 também parecem diferentes de todas. E os garotos também. Será esse o precipício de cada geração? É uma dor incrível o quanto eles tentam se apartar uns dos outros.




Daqui vejo os posters na sua parede branca: Renato Russo, Blink 182, Marilyn e algumas outras fotos e desenhos colados aleatoriamente.

Ana Maria ama. E ela sabe bem que amar é uma causa perdida. As pessoas não sabem o que é o amor e de vez em quando até ela mesma se questiona se o compreende. Eu posso ver, daqui dessa janela onde estou a espiando, a dor que ela guarda junto ao coração. Não é infarte, é um calor estranho e inexplicável.

Diagnosticou altas doses de egocentrismo na sua fala, nos seus atos. É sincera, a moça. Reage mal a tudo, é ferida. É assim, odeia e adora com facilidade mas nunca guarda nada de ruim. Percebo também um medo de ser, uma paranoia que a persegue.

Conheço muito bem suas ressacas morais, suas crises, seus arrependimentos. Ainda há o arrependimento das oportunidades desperdiçadas. Isso todos nós temos, não é? Então, o que há de errado, de especial, de belo em cada um? Somos iguais mas a discrepância grita.

Ela deseja uma vida completa e morre todos os dias. Seus sonhos a assombram pois eles expurgam a bagunça e falta de clareza que ela tem sobre a vida. Alguns dias posso ouvir seus gritos. Me aproximo da janela e a vejo arrancando cabelos, em lágrimas, nas madrugadas frias.

Queria poder a acolher, a proteger de toda a dor, da consciência de que vivemos numa linha de perpétua insatisfação e dúvidas. Eu a ajudaria com a morte mas privar Ana Maria da descoberta seria um crime maior do que salvá-la.

Silêncio se faz quando ela chega no quarto. Eu a observo da minha poltrona, do outro lado da rua, no prédio vizinho. Será que um dia ela conhecerá meu nome?
elysemelo.com

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