terça-feira, 26 de julho de 2016

Paraíso dos Erros

Gastamos nosso precioso tempo esperando por uma vida ideal que nunca chegará. Corremos por dinheiro, por beleza, por perfeição. Construímos uma imagem falsa a respeito de nós mesmos e da nossa bondade. Quem disse que somos bons? Quem disse que estamos aqui para amar? Quem disse que a felicidade existe?

Não há fé ou esperança no meu tom. Não sinto nada ao dizer as coisas que tenho dito. E, tenho dito, toda a forma de sentimentalismo burguês não passa de mais uma aspiração egoísta. Tem um negócio gritando dentro da gente e diz "ei, cara, cê tá indo no caminho errado!!!" e é por isso que conseguimos fazer o mal até quando nossa intenção é pura.

Desafio agora todas as ideias estabelecidas. Da onde é que veio essa ideia de que todos devemos pensar no próximo? Quem pensa em nós? Qual dos políticos, ande, me diga, qual deles pensa no bem estar da nação? Qual dos líderes religiosos levanta da cadeira de sua mesa ornamentada com iguarias para o mendigo sentar? Acaso não foi isso que Cristo disse que era pra fazer? Se a teologia de vocês funcionasse, as Bruxas de Salém estariam vivas.

Se ao longo dos séculos a maldade persiste, talvez ela esteja entranhada demais em nós para ser vencida. O que seria da humanidade sem um alvo a perseguir? O devir é desesperador, que haja luz, que haja o inteligível. A dor não pode ser aplacada, assim como o tempo não volta, não voa, não para. A morte é uma caricatura, somos mortais, a vida é eterna. Eterna não para nós, que breve conhecemos e sentimos, tudo sobreviverá a nossa existência banal.

Banal e ao mesmo tempo incrível nós somos. Daqui há 1,5 milhão de anos seremos extintos, estimativas dizem algo sobre. E nada do que fomos poderá ser fixado em um mural numa rede social qualquer. Seres reais demais para serem caracterizados como divinos recolherão nossos destroços, dogmas de uma civilização caída e plural. O frio não será mais sentido nos corpos dos reféns do grande monstro cinza, enfeitado com chifres que brilham à luz do sol.

A imensidão azul não será mais passível de estudos, o Leviatã terá sido perdido e com ele nossas cantigas, nossos contos, nossas paixões. A erudição perecerá como tudo o que ela julgou superficial, o santo habitará o mesmo lago de fogo que o profano. Ao pó retornaremos.

O silêncio não gritará nas nossas mentes lembranças dos erros cometidos. Eis que anuncio meu evangelho: o descanso chegará para todos e virá mais forte para almas que, como as minhas, sofrem incansavelmente por não conseguirem transcrever tamanha solidão. Os ídolos serão conhecidos, mistérios desmantelados. Já posso ouvir o coro do povo, é o fim! É o fim! Nossas espíritos encontrarão nossos pais! Deus vem, Maranata! E a decepção tomará conta dos olhos de cada um dos fiéis, pois não viveram cada dia como se fosse  último.

Eles não disseram eu te amo para suas mulheres naquela manhã, não deitaram com as prostitutas naquela noite. Não abraçaram seus parceiros de caminhada, não beberam até perder o juízo. O juízo chegou para todos e a sentença foi uma só: condenados para sempre ao fôlego da paixão num invólucro passageiro.
elysemelo.com

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