domingo, 3 de julho de 2016

Viagem Perdida

Ela tem 17 anos e se chama Ana Maria. Ana Maria gosta de cinema, de música e de literatura. Guarda em si a vaidade de parecer diferente de todas mas todas as outras garotas de 17 também parecem diferentes de todas. E os garotos também. Será esse o precipício de cada geração? É uma dor incrível o quanto eles tentam se apartar uns dos outros.






Daqui vejo os posters na sua parede branca: Renato Russo, Blink 182, Marilyn e algumas outras fotos e desenhos colados aleatoriamente.

Ana Maria ama. E ela sabe bem que amar é uma causa perdida. As pessoas não sabem o que é o amor e de vez em quando até ela mesma se questiona se o compreende. Eu posso ver, daqui dessa janela onde estou a espiando, a dor que ela guarda junto ao coração. Não é infarte, é um calor estranho e inexplicável.

Diagnosticou altas doses de egocentrismo na sua fala, nos seus atos. É sincera, a moça. Reage mal a tudo, é ferida. É assim, odeia e adora com facilidade mas nunca guarda nada de ruim. Percebo também um medo de ser, uma paranoia que a persegue.

Conheço muito bem suas ressacas morais, suas crises, seus arrependimentos. Ainda há o arrependimento das oportunidades desperdiçadas. Isso todos nós temos, não é? Então, o que há de errado, de especial, de belo em cada um? Somos iguais mas a discrepância grita.

Ela deseja uma vida completa e morre todos os dias. Seus sonhos a assombram pois eles expurgam a bagunça e falta de clareza que ela tem sobre a vida. Alguns dias posso ouvir seus gritos. Me aproximo da janela e a vejo arrancando cabelos, em lágrimas, nas madrugadas frias.

Queria poder a acolher, a proteger de toda a dor, da consciência de que vivemos numa linha de perpétua insatisfação e dúvidas. Eu a ajudaria com a morte mas privar Ana Maria da descoberta seria um crime maior do que salvá-la.

Silêncio se faz quando ela chega no quarto. Eu a observo da minha poltrona, do outro lado da rua, no prédio vizinho. Será que um dia ela conhecerá meu nome?
elysemelo.com

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