segunda-feira, 6 de março de 2017

Mais uma dose

Por muito tempo me isolei do mundo e dos meus próprios sentimentos. Dançava com o vazio, buscando o máximo de solidão possível. Como tudo na vida me entediava, cansei de viver só em mim mesmo e resolvi abrir a porta para outras pessoas entrarem. O vento bateu forte, levantou a poeira dos móveis. O sol entrou e incomodou meus olhos mas mesmo assim permaneci. Uns entraram, conversaram comigo brevemente e logo partiram. Outros, após uma repulsa inicial por causa do cheiro de guardado dos livros, até que gostaram de ficar.

Minha vida se transformou numa festa cheia de mulheres, bebidas, lances carnais. Mas era mais que isso. Ouvíamos músicas que tocavam nossos corações, fumávamos cigarros baratos para relaxar, víamos filmes que nos faziam querer viver em outro mundo. De repente, parei e me perguntei do que estávamos tentando tanto fugir. Corri pro quarto, expulsei um casal que usava minha cama, pensei. Nossa! Estamos fugindo do mesmo vazio que esse lugar era antes.

Reparei que fazíamos tudo na tentativa de sanar nossas dúvidas, pra aguentar essa lacuna doida e doída que é existir, sentir, amar. E, afinal, não somos todos seres procurando um amor? Seja ele da forma e altura que se apresentar, seja romântico ou amigável. Talvez queiramos também os dois. Fazemos festa porque o silêncio é ensurdecedor. Gritamos e choramos porque não sentir nada é como se lançar num abismo e nunca parar de cair.

Voltei pra sala e coloquei a música mais punk que encontrei entre a seleção. Naquele dia, onde eu entendi que a companhia deles era o que importava e viver o que estávamos vivendo bem ali era o bastante, parei de desejar partir. Um amigo meu diria que esse é um momento de vitória, dentre as poucas que podemos ter, a materialização do eterno retorno.
elysemelo.com

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