sábado, 27 de maio de 2017

Imperial War Museum London: Holocausto

Em Londres, num um dia de aventuras sozinha, fui ao outro lado da cidade visitar o Museu Imperial da Guerra. Com um andar todo destinado a exposição de relíquias do holocausto, meu coração foi tocado e moído pelo que vi, li e ouvi.

O clima era de máximo respeito, silêncio e nenhuma foto sendo tirada. Símbolos e uniformes nazistas estavam expostos. Nas paredes escuras, palavras brotavam para explicar a narrativa completa da Segunda Grande Guerra Mundial. Documentos da Gestapo, as estrelas que eram costuradas nas roupas, identidades de espiões que entregavam judeus e seus esconderijos. Tudo estava cuidadosamente exposto para qualquer um que quisesse ver.


Havia uma maquete enorme do campo de concentração de Auschwitz. Me imaginei naqueles trens. Eu era uma pequena criança judia, passando fome e frio, indo para um lugar mal. Uma simples e indefesa criança que, por causa de minha etnia, deveria pagar.

Vi os milhares de sapatos num expositor de vidro do museu. Encostei no vidro, tentando reconhecer o menor traço de alguém que já tenha o usado. Pensei no quanto ele teria gostado daquele sapato marrom que agora se encontrava sujo e despedaçado. Aquele que pediu de presente e que os pais lhe deram com muito esforço. 70 anos depois, exposto como um retrato da maldade humana sem escrúpulos que mata por ganância. Pude ver a face de 40 milhões de vidas perdidas que pairavam na minha frente. 

Imaginei as histórias individuais, os casos de amor, os sonhos e planos. Tudo isso foi tirado deles. As músicas que nunca foram compostas e cantadas. Os livros que poderiam ter sido escritos. Os líderes políticos que poderiam ter feito o bem e que foram brutalmente assassinados pelos nazistas e por Adolf Hitler. Mas, também, imaginei aquela criança que seria um simples dono de mercearia anônimo. Ele faria a diferença na vida de centenas de pessoas, doando um pouco do seu pouco quando via alguém em necessidade.

Avistei o pijama listrado de azul e branco. Bem fino, surrado e sujo. O frio da Alemanha sobre o corpinho fraco das crianças, por comer pouco ou nada passando por isso, sem merecer. Olhando nos olhos dos seus pais e não encontrando resposta para tamanha dor e sofrimento. "Por que somos tratados assim, papai? Não cometemos crime algum. Nenhum dos nossos amigos falou nada quando nos levaram de casa". 


Naquele ponto da visita, minhas lágrimas já não estavam contidas. As pessoas do meu lado olhavam cuidadosamente cada outra vestimenta naquele salão. Assombradas com que foram capazes de fazer com outros seres humanos. Muitos também se emocionavam. 

Qual é então o benefício de termos museus para lembrarmos do Holocausto? Há um tempo, ouvi dizer que era de mau gosto. Mas se você já esteve numa atmosfera de imersão como a que eu estive e tem um pingo de sensibilidade, tenho certeza que entende o objetivo. O objetivo não é cantar vitória sobre os alemães e lembra-los sempre do que fizeram ao sangrar os corpos de inocentes em busca da supremacia nacional. O objetivo é jamais apagar da nossa memória o que a polarização e o radicalismo são capazes de fazer. 

Não é como se a Inglaterra estivesse isenta de sangue e mortes em sua história. Na verdade, grande parte das nações e instituições tem uma trilha de sangue em seu passado. Os seres humanos tem as mãos sujas de sangue. Ao meu ver, a falta do diálogo com o diferente e a incapacidade de cuidar da própria vida sem culpabilizar o próximo são a grande causa disso. Se deixamos de assumir responsabilidade e rédeas das nossas próprias vidas, líderes como Hitler surgirão novamente com a proposta de salvação da pátria. Com a ideia de que temos direitos que não temos e que merecemos vantagens que não trabalhamos para ter.

Podemos enxergar isso no sistema brasileiro, na forma que fazemos política. Podemos enxergar isso no ressurgimento de movimentos nacionalistas na América do Norte e na Europa. Podemos ver isso também em organizações terroristas no Oriente Médio. 

Não é como se alguém estivesse isento. Nenhum de nós está. Cultuamos o terror e a separação de seres humanos por causa de seu local de nascimento, posses e cultura. Julgamos quem pensa diferente. Embora o direito à vida e à liberdade sejam direitos inegociáveis, tomamos sua propriedade privada contra sua vontade. Nada mais justifica tocar em outro ser humano e em seus bens em prol de uma "causa maior". A causa maior é a vida em liberdade que deve ser garantida para todos. 

Encerro dizendo que defender o fim da propriedade privada não é ser a favor do bem comum, pois o fim da mesma provocaria uma série de anomalias e injustiças com indivíduos pacíficos. Segue uma breve definição de propriedade privada:

Propriedade é o direito de dispor de um recurso com poder de decisão sobre o mesmo, o que inclui o direito de excluir violentamente, quando necessário, outros do usufruto e ocupação deste recurso. Propriedade sobre si mesmo é, dessa forma, o direito de agir livremente com o seu corpo (desde que não violando o direito recíproco de outros) e de excluir indivíduos desta esfera de autoridade delimitada pelo próprio corpo. 

Leia o artigo completo "O direito de propriedade sobre o próprio corpo", no site do Instituto Mises Brasil.


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