terça-feira, 23 de maio de 2017

Resposta:‘Você não presta': 7 estereótipos racistas reforçados por Mallu Magalhães em clipe

Texto escrito para o portal Virgula, por João Vieira, criticando o clipe de Mallu Magalhães é contundente em algumas partes. Apenas em algumas. Abaixo, minha crítica em resposta aos "fatos" apresentados tão ferozmente pelo autor.

Discordância

Encontro de ideias


1. O corpo besuntado

"Besuntar o corpo de negros é uma das práticas clássicas e mais silenciosamente violentas da comercialização de escravos durante o período em que isso era legalizado. Naquele tempo, negros vindos da África eram besuntados em banha para parecerem mais dispostos, saudáveis, disfarçando, assim, os maus tratos físicos de suas viagens forçadas em navios negreiros.

Assim como Mallu.

Em seu clipe, a cantora mostra dançarinos brilhantes como frangos de padaria, exaltando neles um ar de “selvageria” que, de acordo com a própria, demonstra sua nova atitude enquanto artista."

2. A jaula


(foto: Youtube/Reprodução)

Por uma razão difícil de compreender, em dado momento do clipe, Mallu Magalhães “enjaula” seus dançarinos negros em um cômodo com grades e uma escada. Ali estão apenas eles, os negros, sem ela. Enquanto isso, Mallu canta: “eu convido todo mundo para a minha festa, só não convido você porque você não presta”.

A combinação infeliz – pra dizer o mínimo – se tornou um dos trechos mais criticados pela comunidade negra, uma vez que, além do histórico de escravidão, negros são enjaulados pelo poder público até hoje. Segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), dos 622.202 mil presos brasileiros em 2016, 61,6% são negros.

3. O distanciamento de Mallu


A linguagem audiovisual de Você Não Presta deixa uma coisa clara: Mallu não faz parte do grupo de dançarinos negros que protagoniza as imagens. Ela, na verdade, se coloca como dona deles. Sempre à frente, a artista não tem nenhum contato físico com eles em momento algum e apenas por alguns segundos se senta ao lado de um deles.

4. A hipersexualização do corpo negro


(foto: Youtube/Reprodução)

Uma das coisas mais evidentes em Você Não Presta é a diferença entre o look de Mallu e os de seus dançarinos. Suados, os negros estão vestidos de forma selvagem, sem camisa, com top e calças apertadas. Mallu Magalhães, no entanto, veste roupas mais fechadas, mostrando pouco de seu corpo e sem uma gota de suor.

Seria completamente diferente se ela estivesse com um visual equivalente.

A hipersexualização do corpo negro é histórica, desde os mitos fetichistas relacionados a órgãos genitais da raça, que tiveram surgimento na época em que escravizar negros sexualmente era comum, até produções como Sexo e as Negas, assinada por Miguel Falabella e exibida pela Globo em 2014.

Como uma jovem de classe média que sai escondida dos pais de seu apartamento no asfalto para curtir um baile no morro, Magalhães arrisca alguns passos de dança, mas deixa claro que não faz parte daquela comunidade.

5. Negros como objeto decorativo


(foto: Youtube/Reprodução)

A falta de interação entre Mallu e os dançarinos negros faz com que eles ganhem uma função decorativa no clipe. A cantora parece utilizá-los para parecer cool, assim como a camiseta do Oscar de 2002 que veste em um dos takes. Para quem não sabe, essa edição se tornou histórica na Academia por premiar dois negros nas categorias de Melhor Ator e Melhor Atriz: Denzel Washington e Halle Berry.

Que mensagem ela quer passar com essa combinação?

6. Essa declaração


No material de divulgação enviado à imprensa, Mallu Magalhães diz que escolheu essa música como primeiro single “por uma necessidade e vontade de quebrar o vidro, do meu trabalho, da minha carreira e da minha imagem… colocar para fora uma energia de atitude, uma onda tão urbana como selvagem.”

A combinação de fatores nos faz perguntar: os negros representam essa selvageria?

Ora, não estão eles besuntados para parecerem mais ousados? Não estão com o corpo à mostra em diversas ocasiões e, acima de tudo, não foram eles enjaulados no clipe?

Ou seja…

Youtube/ReproduçãoMallu e sua camiseta do Oscar de 2002

Mallu Magalhães, que jamais prestou qualquer apoio ao enfrentamento da comunidade negra contra a violência racial, tampouco deu tamanha visibilidade a negros em seus clipes anteriormente, parece tentar embarcar no crescimento da presença de pautas raciais na mídia, com o sucesso de personalidades como Djamila Ribeiro, Nátaly Neri, Taís Araújo e Lázaro Ramos.

A camiseta do Oscar, a relação “exótica” entre uma menina branca e um grupo de negros selvagens e a sua postura sempre à frente delas, porém, cria um ar de desconforto e profundo constrangimento para quem dessa raça faz parte.

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