sábado, 12 de maio de 2018

Escrito Jaz

Mariana foi para casa, depois de um dia longo de aulas tediosas puxou o caderninho de anotações diárias que mantinha e escreveu algumas palavras positivas. Algo como "amanhã vai ser legal" e o repousou sobre a cabeceira da cama, pois sabia que a mãe lia tudo o que ela escrevia durante a madrugada enquanto ela estava dormindo. Debaixo da cama, guardava o verdadeiro caderno de confissões, abriu-o e escreveu na primeira folha em branco que apareceu:

"Nunca fui muito fã de fazer as coisas como manda o figurino e é por isso que hoje começo pelo fim. Adoraria que esta fosse a minha carta de despedida desse mundo nefasto, que só me traz rancor e outros engôdos, mas sou covarde demais para deixar minha mãe em lágrimas no meu velório e suponho que isso mostre que ainda tenho um pouco de decência. Com a morte tive minha primeira experiência aos 10 anos quando papai foi tirado de mim, não sei ao certo, mas garanto que o que estava escrito na certidão de óbito era o menor dos seus problemas. Quatro anos depois, conheci o câncer de pulmão de meu avô que me ensinou que o único deus que devemos temer é a morte.




Ah, então você pensa que a solução para minha amargura é procurar Jesus? Eu o procurei com toda minha alma e devoção por anos, tentando não enlouquecer mas enlouquecendo, provando enfim que ele nada mais era que um carpinteiro. Aliás, se realmente foi carpinteiro... Pois não tenho como confiar no Império Romano e no que o cristianismo se tornou. Tudo me foi tirado e meu corpo está entorpecido depois de tantas punhaladas. Declaro meu ateísmo, pois de tanto buscar me cansei do sobrenatural e de ceder parte de meu raciocínio para confiar em algo que não existe.

Nunca fui de me relacionar muito com as pessoas, não sei falar com elas nem tê-las por perto. Queria desesperadamente ser sociável mas retorço-me todas as vezes que penso na possibilidade. Minha confiança foi minada e também não sei mais falar em público, nem em particular. Em grupos, fico em silêncio perdida em pensamentos. Sou mulher mas não me sinto como uma.
Quando ainda vivia a religiosidade, arquitetei quem eu queria ser. Madre Teresa, dar minha vida pelos pobres e desamparados, fazer o bem. Deus haveria de me recompensar numa vida póstuma e agora que reconheço os fatos não encontro o norte. O que eu deveria fazer? No que sou boa? Dinheiro ou amor?

O amor, aquele otário. Quantos otários e otárias, quantos beijos, quantas palavras e esperanças destroçadas, quantas camas, quantos gemidos, quantas promessas. Fodi tantas canções, com tantas canções e foi. Uma obsessão recente me sacudiu e ainda não me recuperei da queda. Eu vou, tenho que ter coragem. Ter coragem é chato, gosto de ser fraca e necessitada de atenção. Ninguém nunca viu nenhum problema sério em mim, todos pensam que sou normal, todos pensam que faço drama, todos pensam que estou exagerando. Ninguém me leva a sério quando digo que não ligo mais para o doce barulho do vento sacudindo a copa das árvores, não encham a porra do meu saco, eu daria tudo para fugir pra bem longe de mim, pra bem longe dessa arma letal que é meu ser."

Ela largou a caneta de lado, guardou o caderno de confissões, vestiu mais um de seus muitos sorrisos projetados e foi se sentar ao lado da mãe no sofá. Mariana era Nibiru em rota de colisão com nosso lindo planeta azul, mas ninguém nunca suspeitou.


* Escrito em 10 de Agosto de 2016. Por que não há palavra que morra, não existem frases que uma vez proferidas não ecoem pela eternidade. Eu não estou envergonhada ou com medo de quem fui e sou. Apenas grata pela possibilidade de transformação que me foi oferecida. Por que publicar agora? Porque eu sei que existe alguém que se sente exatamente da mesma forma. O dom da palavra me foi dado para que eu expresse palavras que outros não conseguem expressar, ainda que hajam gemidos inexprimíveis.

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