sábado, 12 de maio de 2018

Tempo Profano

São quase quatro da manhã e eu estou cansada demais para escrever. Sigo escrevendo. Já passei da época de sangrar no papel e chorar minhas mágoas de criança. Já passei da época de me comover com meu próprio sofrimento. Também estou cansada demais para dormir. Fala-se muito da liquidez, da pós-modernidade, das verdades relativas e de toda essa reformulação do modo com que nos relacionamos com o mundo.
Como as coisas podem mudar tanto tão rápido? Será que não estamos num limbo de fracasso, onde nada novo pode ser criado, porque tudo já existe inclusive textos similares a esse em milhares de idiomas diferentes? Será que não é tudo um terrível pesadelo? Apenas estamos todos querendo negar desesperadamente que não temos nada. Absolutamente nada. Nenhum Deus, nenhum futuro, nenhum objetivo em comum.
Nada que nos prenda ao tempo, nada que possibilite que transfiramos nossas emoções e memórias para algum lugar na eternidade. Nada que nos garanta que manteremos a consciência após à morte. E morte. Será ela uma boa e velha amiga que nos levará ao nosso lugar feliz? Algum lugar feliz e justo para todas as almas, afinal, não é essa a base de toda nossa filosofia e civilização judaico-cristã? E se Cristo, ou Platão, jamais houvessem existido? Que ideia teríamos? Não cabe a mim destruir pés de barro. Tudo já foi feito e eu nada de novo ou produtivo tenho a acrescentar. Voltando a indagação que me incomoda, o humano, o que diabos é um humano? Se você olhar no espelho friamente analisando suas formas, vai se reconhecer um alienígena. Todos os padrões de beleza se esfacelam perante tamanha estranheza.
Por que, mesmo nas mais isoladas civilizações, temos agarradas perguntas existenciais sob nosso couro? Que droga de brincadeira é essa que fazem ou que aconteceu por acaso? Por que minha alma quer voar como uma andorinha e meu corpo me prende ao chão? Do que é constituído e onde posso apalpar minha razão? Essas perguntas me torturam mas poucas coisas me deprimem mais que saber que milhares de vocês ignoram e constroem em volta de si edifícios odiosos de futilidade. Dramatizo eu tudo?
Reconheço minha arrogância porém não busco a redenção. Não por essa causa, não por me prestar a pensar. Busco redenção por ter o mal dentro de mim. Já disse e repito de novo: ela não está disponível no altar. Nem em coletivos políticos ou trabalhos voluntários. Caí em mim diversas vezes e por vários anos vivo os mesmos ciclos de loucura, medo, dor e solidão. Caí em mim porque eu sou minha pedra angular e minha pedra no meio do caminho e que vá pro inferno todo o resto. Sempre preferi pagar pra ver.
Sobre o amor e as desilusões, estou pronta. Para viver essa experiencia mortal ao máximo, aceitar que tudo acaba, desgasta e deteriora com a passagem dos anos. Entendo que vou desbotar como uma foto antiga e em breve sumirei. Minha existência jamais será lembrada, não farei falta e tampouco o movimento de translação se afetaria. Secretamente (e olha que guardo poucas coisas em secreto porque sou uma bocuda), cultivo a fantasia de que eu seja como ele. Que minha vida e obra sejas amplamente discutidas um século após minha morte. Entretanto, não tenho obra e isso não poderia ser chamado de vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você é livre.

elysemelo.com

Design por Butlariz