sexta-feira, 29 de junho de 2018

Crônicas do Reino: Casamento Real I

A minha história sempre foi marcada pela dor. Quando eu era criança tentaram me matar, tentaram matar os de minha casa paterna. Por muito tempo vivi perdida e sem alimento, nem mesmo tinha aonde dormir. Eu vivi entre os porcos, comi junto com eles quando podia. Não tinha um lar seguro, nunca tive alguém que me defendesse ou me ensinasse alguma coisa útil. Depois de muito vagar, parei na porta do palácio do rei mais famoso da minha região.

Ouvia-se que ele era como um leão em suas batalhas e destruía toda injustiça com seu exército poderoso. Vitoriosamente, batalhava pela verdade e com muita alegria era ungido. Cansada de tanto caminhar, com fome e muita sede, sentei em uma pedra e esperei. As lágrimas insistiram em rolar. Então, minha sorte mudou de repente. Uma moça disse que eu precisava acompanha-la até a sala do trono do rei. Me conduzindo pela mão, passamos pelo portão que para nós se abriu.

Ao entrar no palácio fiquei assombrada. Nunca tinha visto tanto ouro, topázios, diamantes, esmeraldas... O piso de marfim me lembrava alguma paisagem que eu já tinha visto. Haviam esculturas, pinturas de heróis do passado e instrumentos musicais posicionados no grande salão de recepção real. Nas estantes que iam do chão ao teto, muitos livros e coletâneas de milhares de temas e idiomas de terras distantes. A moça que me levou até lá, pediu que eu aguardasse um pouco. Eu fiquei só no salão do palácio. A sensação de que eu estava perto da sala do trono do meu rei queimava meu coração de alegria.

Olhei pra minha roupa rasgada e suja e só queria correr pra bem longe daquele lugar tão maravilhoso. Eu pensava, “sou indigna”. Que graça, que beleza, que interesse o rei poderá sentir por mim? Só não corri pois alguma coisa me dizia que eu poderia não ter outra chance de falar com o rei, senão aquela. Isso se ele me recebesse naquele dia.

Algumas servas me levaram até um quarto cheio de moças lindas com seus cabelos negros, cacheados e muito longos. Uma delas se levantou, seu sorriso cativante, e me levou até a sala de banho. Minhas roupas foram cortadas, pois aquelas vestes jamais me serviriam de novo. Jogaram todos os meus pertences no fogo. Eu tinha vergonha da minha nudez, pois na minha nudez os meus machucados ficavam expostos.

As servas, percebendo que eu estava constrangida e cheia de vergonha, me acalmaram e limparam cada machucado meu. Alguns machucados doeram demais para serem limpos, até alguns vermes que se alimentavam de minha carne apodrecida apareceram. Eu gritei algumas vezes, mas entendi que esse era o processo de cura. Depois que fui limpa, elas derramaram óleos e bálsamos curativos nas minhas feridas. O bálsamo de Gileade, como elas chamavam, sarou tudo que minha vida difícil tinha me feito.

Finalmente, elas me conduziram à uma banheira de águas quentes e muito perfumadas. Senti felicidade verdadeira, uma alegria que não consigo descrever, pois entendi que elas estavam me preparando para ver o rei.  Ao sair do banho revigorante, vestes lindas e bordadas tão habilmente me esperavam. Ao terminar de me vestir, a mesma serva do sorriso cativante me entregou uma caixa cheia de joias reais e me vestiu com um lindo vestido bordado.

Nos entreolhamos e entendi que agora era a hora de encontrar o rei.

Parte II em breve aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você é livre.

elysemelo.com

Design por Butlariz